O texto e o podcast sobre a minha peregrinação Santiago de Compostela originou uma troca de mensagens e posteriormente o segundo episódio do Diz Coisas sobre a viagem de moto do Pedro de Sousa pela EN 2. O desafio do Pedro, um jovem designer de 25 anos, foi atravessar o país. E ficou com muito para contar.

Pedro de Sousa começou cedo a andar sobre duas rodas. Com o pai, naturalmente, pois nenhuma das recomendações ou histórias de vida aqui relatadas tem nada de ilegal.

A herança do gosto pelas viagens de mota é por isso assumidamente paterna, quando o pai do Pedro, à altura em que ele nasceu, trocou a moto de pista por uma de passeio porque “queria ficar um bocadinho mais calmo”. Mas isto é o Pedro a contar-nos.

Feito aventureiro, aos sete anos já andava “à pendura” com o pai, nas viagens que então fazia e, mais lá por casa, já tinha motas pequenas para se ir habituando. Das motas de criança com motor de “corta-relva” passou para uma Mota Yamaha XT 600 cc, alguns anos depois.

Há cerca de dois anos tirou a carta de moto, altura em que comprou a sua moto, e desde então não tem tido paragem. Já fez o Lés-a-Lés, passeio que atravessou Portugal de Norte a Sul, de Felgueiras a Sagres junto à costa.

Note-se que nestas viagens o método de orientação privilegiado é em navegação, que consiste essencialmente numa leitura do trajecto em papel, rejeitando o GPS e a voz aveludada da senhora do aparelho, que não raras vezes nos manda sair na segunda saída, não vá a gente trocar-se e entrar de lá para cá em desgoverno total.

Em 2020, Pedro tinha combinado viagem de moto até aos Picos da Europa com o pai, mas a pandemia Covid-19 veio atrapalhar os planos e a saudosa viagem em família ficou adiada. Como não tinha feito quaisquer reservas de hotéis ou outras agendas, não perdeu nada com o adiamento, além da experiência.

Com o buraco na agenda e muita vontade de fazer-se ao alcatrão, a Estrada Nacional 2 começou a ser uma hipótese consistente para descobrir o país de norte a Sul, de Chaves a Faro. 738 quilómetros de uma estrada a que já foram roubados alguns quilómetros de piso, mas continua a permitir verdadeiros postais do nosso país, como a seguir nos conta.

Planear a viagem foi simples. Não nos disse se adicionou Born To Be Wild (Steppenwolf) à playlist de canções para a viagem, mas aqui fica a lista de itens essenciais que colocou nas duas malas de alumínio (de 39 litros cada uma) que adornaram a parte traseira da moto.

Uma t-shirt por dia (que o motard do século XXI quer-se limpo) e dois pares de calças, porque numa viagem de moto qualquer encontro com um insecto ou zona de poeira deixa-nos num com um visual de quem não foi ao banho durante uma semana. No rol de essenciais estão os lenços de papel, que além da higiene pessoal, permitem limpar a viseira do capacete, e assegura que qualquer mosca não deixa uma mancha bastante evidente no ângulo de visão.

Embora estando em Lisboa a viver – tinha praticamente meio caminho feito – Pedro é um purista destas iniciativas e veio até Chaves para fazer as coisas como deve ser. Até na dormida, em parques de campismo no verdadeiro espírito de viajante.

 

Primeiro dia: Chaves – Viseu.

 

A ladear-lhe o caminho, a paisagem do Douro, com as vinhas, os socalcos e bastante paz. “Ao lado da EN 2 há vias rápidas ou auto-estradas”, conta-nos Pedro, para evidenciar que este trajecto é hoje essencialmente turístico e o trânsito com que o viajante se cruza é praticamente de outros turistas com o mesmo interesse.

Contudo, o apoio electrónico é importante, pela orientação quando as partes destruídas da EN 2, sobretudo na entrada e saída das cidades, onde a informação rodoviária não encaminha claramente para as melhores vias de regresso à mítica estrada. Mas vale bem o espírito ‘let’s get lost’, segundo o Pedro. 

“O interesse da EN 2 é mesmo essa magia de um dia estarmos no Norte, com uma paisagem característica, e no dia a seguir já estamos no Centro de Portugal ou nas rectas do Alentejo, onde é só herdades e rectas com dez quilómetros, que é impensável no Norte.

Na mochila

Roupa

  • Camisola
  • 5x T-shirt
  • 1x Calções de desporto
  • 1x Calções de Banho
  • 2x Calças
  • 1x Calças de treino
  • Ténis
  • Cinto
  • 5x Underwear
  • 5x Socks
  • 2x Mascaras (COVID)
  • 1x Luvas para frio
  • 1x Gola

Outros

  • Totebag
  • Saco para roupa usada
  • Oculos de Sol
  • Cadeado
  • Papel e Caneta
  • Caderno

Higiene

  • Pasta dentrifica
  • Escova de dentes
  • Toalhitas
  • Toalha microfibras
  • Champô
  • Desodorizante
  • Creme de cara
  • Creme labial
  • Pente de cabelo
  • Protetor solar
  • Sacos transparentes com fecho zip
  • Lenços de papel
  • Agulha e linha
  • Alcool gel
  • Papel higiénico

Tecnologia

  • Canon G9X
  • Baterias Canon G9X
  • Carregador Canon G9X
  • GoPro Hero 7 Black
  • Baterias GoPro
  • Oneplus 6T
  • Powerbank
  • Cabos USB C, Micro e Lightning
  • Airpods
  • Tripod

Campismo

  • Tenda
  • Saco de Cama
  • Colchão de trekking
  • Lanterna com gancho

 

Segundo dia: Viseu – Abrantes.

 

Há vontade de avançar, mas a paisagem é um travão natural à simples tendência para ‘comer’ alcatrão. Chegar a Sul não é objectivo competitivo e por isso, não raras vezes, Pedro abrandava a marcha.

A “livraria” do Mondego, “uma paisagem de rochas que vista de frente parece uma biblioteca” foi um dos momentos em que o nosso conselheiro entusiasta abrandou para apreciar a beleza natural. Porque há sempre aquela foto que vai tornar toda esta experiência uma bela memória do Verão de 2020, que foi realmente um Verão que aqueceu a histórica pista, mas Pedro só sentiria a contundência do sol lá mais para Sul.

Neste centro-norte em que ainda acompanhamos Pedro no relato, bastava-lhe começar cedo, “por volta das nove horas e chegar tranquilamente, por volta das 16, 17 horas ao local onde ia ficar para poder encontrar o parque de campismo e montar a tenda antes de começar a escurecer”.

Ainda sobre as descontinuidades desta estrada cuja importância na comunicação viária do país se perde na História, há a ressalvar que em Viseu é muito fácil perder o fio à meada. “Estava num semáforo quando um casal me perguntou como se saía da cidade para a EN 2. Para sair das grandes cidades tem que se usar o GPS e aqui, quando se entra dentro de Viseu perde-se completamente a noção da estrada Nacional 2”, alerta. 

Vinhas no Douro.

O casal perdido na mesma missão de atravessar o país acompanhou Pedro durante parte daquele dia… Mas Pedro é um ‘lobo solitário’.

“Em viagens de mota, prefiro fazer sempre sozinho. Tenho mais liberdade para almoçar à hora a que quiser, parar quando quiser. Ir ao meu ritmo”.

A alimentação depende muito da disposição, mas pode ser sempre em contexto da paisagem, que torna cada paragem para repor energias uma experiência agradável.

O pequeno-almoço era, no caso de Pedro “sempre algo comprado no dia anterior. Croissants, folhados ou uma mera sandes. Depois o almoço era quase sempre volante, uma sandes, ou algo num sitio onde parasse durante a viagem. Lanches não fazia e à noite, depois de montar a tenda no parque de campismo, é que ia jantar”.

Na mochila, apenas umas barritas energéticas, um litro e meio ou dois de água, para uma paragem esporádica e atacar eventuais fraquezas.

Chegado a Abrantes, Pedro constata que se vem tornando norma: “Parques de campismo, ao pé de grandes cidades, não existem. O parque mais próximo de Abrantes ficava a trinta quilómetros em Ortiga. Foi o parque de campismo mais bonito da minha viagem, mesmo junto à barragem. E só cheguei ao final do dia, tive de pedir quase por favor para me arranjarem um espaço”, recorda.

Apesar da imprevisibilidade desta opção de pernoita, é a forma mais económica de fazer a viagem. O preço por noite para uma pessoa, com espaço para tenda e moto está entre os 8 e os 15 euros e não perdeu qualidade com o surto pandémico. “Todos tinham balneários asseados e se percebia um cheiro a lavado. Esse serviço estava cuidado”, garante o Pedro.

 

Terceiro dia: Abrantes – Castro Verde.

 

Sente-se a diferença entre a paisagem do Douro e o Alentejo, já com um olho no Algarve.

Há rectas de vinte quilómetros, mas fora desta pista. “A maior recta de Portugal fica em Alcácer do Sal, de vinte quilómetros. Na EN 2 a maior são dez quilómetros”.

“Ia acampar em Mora, mas no dia que cheguei havia um surto de Covid-19. Preferi fazer mais umas duas horas de viagem, de muito calor e rectas longas. É a zona mais monótona, mas de carro deve ser mais”, recorda Pedro, já “a desesperar para chegar ao parque de campismo, tirar as coisas e tomar banho”. Recordemos que era Agosto e o calor alentejano não dá tréguas e atinge-nos como uma pedra.

O destino deste dia 3, que era Mora, passou a ser Castro verde. A 100km de Faro.

Quarto dia: Castro Verde – Faro (KM 738)

 

A Serra do Caldeirão afigurou-se um obstáculo que não se adivinhava. Com apenas cem quilómetros para fazer, Pedro saiu mais tarde do parque de campismo, mas as curvas e contra-curvas e os quase 40 graus de temperatura tornaram o desafio cansativo. Se fosse hoje, sentir-se-ia um verdadeiro João Almeida [o ciclista português que terminou em 4.º lugar no giro d’Italia 2020].

“Só tinha cem quilómetros para fazer, saí mais tarde do acampamento, mas em pleno Alentejo, com muito calor… A Serra do Caldeirão são quase 40 quilómetros em serra”, recorda Pedro.

Ao descer a São Brás de Alportel, um cheirinho de mar, ainda que longe dele. “A diferença entre ir de moto ou carro é isto, tem-se mais contacto com a natureza. Faz-se a viagem praticamente com a cabeça de fora. De carro, se se levar o ar condicionado ligado, limita ainda mais este contacto”.

Já com a brisa do mar e a fictícia meta à vista, Pedro de Sousa chegou ao quilómetro 738 de uma estrada que começa em rotunda e acaba em rotunda. Se isto não é Portugal… 

DICAS

Levar água num camelbag para irmos bebendo agua ao longo da viagem. Andar desidratado na moto afeta a visão, equilibrio e aumenta a fadiga no geral.

Usar uma balaclava ou gola para tapar o nariz e a boca durante a viagem, para evitar apanhar frio, poeira e fumo proveniente do escape dos veiculos que circulam à nossa frente.

Levar a roupa separada em packs. Tshirts e calças num pack, roupa interior noutro. Ajuda bastante quando se quer levar apenas a roupa necessária (dentro de um saco) para a tenda em vez de levar os packs de roupa toda.

Chegar cedo ao parque de campismo (16/17h). Permite-nos ir ao supermercado, passear na vila/cidade, jantar com calma, fazer o update às redes sociais, familiares, amigos e descansar como deve ser.

Podcast

 

Obrigado pela sua leitura.

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